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O papa Bento XVI lembra-nos,
então, que a Eucaristia tem tudo a ver com o domingo, o Dia
do Senhor, e que os fiéis, portanto, não deixem de
participar fervorosamente da Missa aos domingos. Realmente,
no centro do domingo está sempre a Santa Missa, a
Eucaristia. Um domingo sem Missa não é um domingo completo.
É preciso renovar nos fieis a consciência da observância
deste dia santificado, que inclui a participação na Missa.
Neste contexto, é bom recordar
que na história do Brasil ocorreu um exemplo extraordinário
da importância do domingo e da Missa dominical. Trata-se do
testemunho dos beatos mártires de Cunhaú e Uruaçu, no Rio
Grande do Norte, mortos pelos protestantes calvinistas em
1645m e beatificados pelo sempre lembrado e amado papa João
Paulo II. Como sabemos, são dois grupos de mártires, que
foram mortos no mesmo ano de 1645. O primeiro grupo foi a
comunidade católica de Cunhaú, que com seu sacerdote, o
padre André Soveral, foi massacrada enquanto participava da
Missa dominical na sua igreja. Era o povo católico do lugar.
Gente simples, mas religiosa. Foram mortos homens, mulheres,
crianças, jovens e velhos, famílias inteiras, enfim, todos
que participavam da Missa naquele dia de domingo. Foram
mortos por serem católicos e professaram sua fé antes de
morrer. O outro grupo foi morto barbaramente, também por
serem católicos, poucos meses depois em Uruaçu, com seu
sacerdote, padre Ambrósio Francisco Ferro. Neste grupo se
destacou um leigo chamado Mateus Moreira, a quem arrancaram
o coração pelas costas, enquanto ele gritava em alta voz:
“Louvado seja o Santíssimo Sacramento”. Esses mártires,
caros irmãos e irmãs, são uma das maiores glórias da Igreja
no Brasil. O seu martírio, reconhecido pela Igreja, contém
grande força de evangelização. Deveríamos torná-los mais
conhecidos e venerados, porque nos ajudariam amar e
valorizar o domingo e a Missa dominical.
Voltando ao tema do congresso,
“Eucaristia, Pão da Unidade dos Discípulos Missionários”, é
preciso que, diante de Cristo na Eucaristia, nos deixemos
por Ele novamente enviar em missão. A própria festa da
Ascensão do Senhor, que a Igreja hoje celebra, nos fala da
missão. Os Evangelhos relatam que, quarenta dias depois de
sua ressureição, Jesus reuniu seus discípulos, deu-lhes as
últimas instruções e depois subiu ao céu, onde o Pai o fez
assentar-se para sempre à sua direita, cheio de glória e
poder. Nos últimos momentos com seus discípulos, antes de
sua Ascensão, Ele os enviou em missão ao mundo inteiro,
dizendo: “Ide por todo mundo e anunciai o Evangelho a toda
criatura. Fazei discípulos meus todos os povos” (cf. Mc
16,15 e Mt 28,19). Eis a missão da qual Jesus encarregou sua
Igreja. E Ele acrescentou: “Eu estarei convosco todos os
dias até o fim dos tempos” (Mt 28,20). Em consequência,
através dos séculos, até nossos dias, a Igreja sente-se
impulsionada a esta missão. Contudo, nos tempos atuais
manifesta-se uma nova urgência missionária. Os últimos papas
não se cansaram de falar deste tema e procuraram renovar a
consciência missionária na Igreja de hoje. João Paulo II
falou de uma nova evangelização “com novo ardor, novos
métodos e novas expressões”. Esta nova missão terá como
destinatários, de um lado, as pessoas e os povos que ainda
não são cristãos, mas também, de outro lado, os batizados
que se afastaram da participação na vida de suas comunidades
ou passaram a outras crenças ou mesmo à descrença total. A
Igreja tem consciência de que não podemos nos limitar a
acolher e atender as pessoas que vêm mais ou que nunca
vieram a nossas Igrejas. Bento XVI disse, com razão, que
“não basta conservar as comunidades que temos, ainda que
isto seja importante”.
Em Aparecida, há três anos, os
bispos refletiram de modo amplo e aprofundado esta urgência
missionária e chegaram à conclusão que para sermos bons
missionários deveríamos ser bons discípulos. Só o bom
discípulo, aquele que escuta constantemente a Palavra de
Jesus Cristo e o segue na prática da vida, pode tornar-se um
bom missionário. Ora, o discípulo se forma no encontro
pessoal e comunitário com Cristo, como os Evangelhos, nos
mostram ao falar dos primeiros discípulos de Jesus
Ora, meus caros irmãos e irmãs,
foi isto também que se propôs como objetivo este Congresso
Eucarístico, que ora encerramos: renovar em todos os
católicos do Brasil a identidade de discípulos e discípulas
de Jesus e a partir desta experiência e prática continuada
tornarem-se seus missionários.
E quem serão os destinatários da missão? Em princípio,
todos. A vontade de Deus é que todos se salvem. Ora, é pela
fé e pelo Batismo que se ingressa no caminho da salvação.
Mas, como as pessoas podem ter fé se ninguém lhes anuncia o
Evangelho? A fé nasce da pregação, disse São Paulo. Por
isso, todos os seres humanos têm o direito de ouvir o
Evangelho. Às vezes, ouve-s dizer que o importante não é a
quantidade, mas a qualidade de nossas comunidades. Errado!
comunidades sejam sempre mais qualificadas, vivas e
coerentes na fé. Mas, isso não basta. Urge levar o Evangelho
a todos que não basta conservar as comunidades que temos,
ainda que isto seja importante ( cf. disc. Dos bispos
alemães em 2005)
Neste Ano Sacerdotal, é bom
recordar também quanto os nossos padres são indispensáveis e
insubstituíveis neste novo empenho missionário. É claro que
todos os cristãos devem ser missionários, mas os padres têm
um papel especial, pois são os pastores das comunidades
locais. São os padres que devem fazer a missão nos
território de sua paróquia. Para isso, precisam reunir sua
comunidade e escolher um bom grupo de leigos e leigas e
formá-los para sair com eles em missão, visitando as
famílias da paróquia.
Caros padres, a Igreja espera
muito de cada um dos senhores para essa missão urgente. Mas,
podem também ter a certeza de que a missão os ajudará
também a sentirem-se mais padres e a entenderem melhor sua
identidade e a serem mais felizes no ministério. A missão
precisa de todos vocês, padres. Sem vocês, pouco ou nada
acontecerá. E vocês têm muitos modelos em quem se inspirar.
A Igreja no Brasil já tem uma bela lista de padres santos e
beatos. Lembremos o beato Padre Anchieta, missionário do
Brasil; o beato Padre Inácio de Azevedo martirizado em
viagem ao Brasil no início da colonização brasileira; os
três santos mártires do Rio Grane do Sul, que compartilhamos
com o Paraguai, mas morreram mártires em território
brasileiros que são os santos Roque Gonzalez, Afonso
Rodriguez e João Del Castilho; depois temos o Santo Frei
Galvão; os dois beatos mártires do grupo de mártires do Rio
Grande do Norte, já citados, isto é, o Beato Padre André
Soreval e o Beato Padre Ambrósio Francisco Ferro, temos
ainda o Beato mártir Padre Manuel Gómez Gonçalves (do Rio
Grande do Sul); o Beato Padre Mariano (de São Paulo) e o
Beato Padre Eustáquio (de Belo Horizonte). Os padres do
Brasil podem mostrar ao mundo e à Igreja, com santo orgulho,
esses seus colegas santos e beatos. Que eles também ajudem
cada padre de hoje a viver com fidelidade sua vocação e
missão.
Desta missão, os destinatários
são todos, mas os pobres deverão ser os destinatários
prediletos. O papa Bento XVI, na sua visita ao Brasil por
ocasião da Conferência de Aparecida, reuniu-se com os bispos
brasileiros na Catedral da Sé de São Paulo. Ali, ao
estimular os bispos para a missão, sublinhou que devemos com
especial amor aos pobres e visitá-los lá onde vivem, para
levá-los a Jesus Cristo. Disse Bento XVI: “Neste esforço
evangelizador, a comunidade eclesial se destaca pelas
iniciativas pastorais, ao enviar, sobretudo entre as casas
das periferias urbanas e do interior, seus missionários,
leigos ou religiosos. [...]. O povo pobre das periferias
urbanas ou do campo precisa sentir a proximidade da Igreja,
seja no socorro das suas necessidades mais urgentes, como
também na defesa dos seus direitos e na promoção comum de
uma sociedade fundamentada na justiça e na paz. Os pobres
são os destinatários privilegiados do Evangelho” (n. 22).
Irmãos e irmãs, ao encerrar
este magnífico congresso, recordemos também o seu lema:
“Fica conosco, Senhor”. Sim; pedimos ardentemente; “Fica
conosco, Senhor!”, porque, a partir da Eucaristia deste
congresso, queremos decididamente ir em missão. Mas ao mesmo
tempo, temos a consciência de que nada podemos ser sem Jesus
Cristo. Ele mesmo o disse: “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo
15, 5). Por esta razão, pedimos com os discípulos de Emaús:
“Fica conosco, Senhor, pois já é tarde e a noite vem
chegando” (Lc, 24, 29).
Estas palavras têm uma
ressonância especial hoje em dia, quando a Igreja está
sofrendo uma crise difícil. Também a Igreja, caminhando na
penumbra da noite, anseia pela luz da manhã e suplica: “Fica
conosco, Senhor”. A Igreja, por outro lado, sabe que sua
súplica é ouvida, pois Jesus mesmo, no momento da Ascensão
ao Céu, prometeu: “Eu estarei convosco todos os dias, até o
fim dos tempos” (MT 28, 20). Prometeu também enviar-nos Seu
Espírito Santo. De fato, dez dias depois da Ascensão, no dia
de Pentecostes, o Espírito Santo é derramado sobre os
Apóstolos, que estavam em Jerusalém, reunidos em oração, com
Maria, no Cenáculo. Dali, eles partem decididamente em
missão. A partir de então, através dos séculos, o Espírito
Santo será o motor e a luz da missão da Igreja. Nós também
precisamos deste Pentecostes para a missão no Brasil. No
próximo domingo é Pentecostes. Não percamos este momento.
Reunidos em oração com Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do
Brasil, que acompanhou de perto nosso congresso. Peçamos a
Deus que envie como renovado vigor sobre todos nós o seu
Espírito Santo, para que Ele nos transforme em missionários
decididos de Jesus Cristo.
Irmãos e irmãs, queremos partir
daqui esperançosos, felizes, decididos e entusiastas para a
missão que nos espera. Queremos louvar e agradecer a Cristo
pelos dias e horas deste congresso, em que pudemos sentir de
perto a presença do Senhor e o calor de sua acolhida. Somos
seus discípulos e discípulas, Ele quer contar conosco. Cada
um e cada uma de nós, segundo seu estado de vida e
profissão, fará sua parte nessa missão. Então, a Igreja no
Brasil será florescente e tantos que dela se afastaram, irão
reencontrar seu lugar à mesa do Senhor, na Igreja que um
dia, no passado, os recebeu e os batizou. A estes, de modo
especial, queremos revisitar e ajudá-los a superar os
impasses que os afastaram. A eles todos enviamos daqui nossa
saudação de irmãos e nosso testemunho de amor.
Tudo na Igreja se ordena para a
Eucaristia e da Eucaristia. Parte novamente para o labor
apostólico, a fim de buscar e conduzir tantos outros a esta
mesa da verdadeira vida, à mesa do Senhor. Portanto, esta
Santa Missa, cuja celebração agora vamos continuar, não
constitui propriamente um encerramento, mas um ponto alto de
nossa missão, uma expressão intensa de nossa fé em Jesus
Cristo e um novo impulso para anunciá-lo a todos. Amém.
Cardeal Dom Cláudio Hummes
Arcebispo Emérito de São Paulo
Prefeito da Congregação para o Clero |