Muito
Mais que Pedofilia Cardeal Odilo Pedro
Scherer
As notícias
sobre pedofilia, envolvendo membros do clero, difundiram-se
de modo insistente. Tristes fatos, infelizmente, existiram
no passado e existem no presente; não preciso discorrer
sobre as cenas escabrosas de Arapiraca… A Igreja vive dias
difíceis, em que aparece exposto o seu lado humano mais
frágil e necessitado de conversão. De Jesus aprendemos: "Ai
daqueles que escandalizam um desses pequeninos!" E de São
Paulo ouvimos: "Não foi isso que aprendestes de Cristo".
As palavras dirigidas pelo papa Bento XVI aos católicos da
Irlanda servem também para os católicos do Brasil e de
qualquer outro país, especialmente aquelas dirigidas às
vítimas de abusos e aos seus abusadores. Dizer que é
lamentável, deplorável, vergonhoso, é pouco! Em nenhum
catecismo, livro de orientação religiosa, moral ou
comportamental da Igreja isso jamais foi aprovado ou
ensinado! Além do dano causado às vítimas, é imenso o dano à
própria Igreja.
O mundo tem razão de esperar da Igreja notícias melhores:
Dos padres, religiosos e de todos os cristãos, conforme a
recomendação de Jesus a seus discípulos: "Brilhe a vossa luz
diante dos homens, para que eles, vendo vossas boas obras,
glorifiquem o Pai que está nos céus!" Inútil, divagar com
teorias doutas sobre as influências da mentalidade moral
permissiva sobre os comportamentos individuais, até em
ambientes eclesiásticos; talvez conseguiríamos compreender
melhor por que as coisas acontecem, mas ainda nada teríamos
mudado.
Há quem logo tem a solução, sempre pronta à espera de
aplicação: É só acabar com o celibato dos padres, que tudo
se resolve! Ora, será que o problema tem a ver somente com
celibatários? E ficaria bem jogar nos braços da mulher um
homem com taras desenfreadas, que também para os casados
fazem desonra? Mulher nenhuma merece isso! E ninguém creia
que esse seja um problema somente de padres: A maioria
absoluta dos abusos sexuais de crianças acontece debaixo do
teto familiar e no círculo do parentesco. O problema é bem
mais amplo!
Cardeal Odilo Pedro Scherer
Ouso
recordar algo que pode escandalizar a alguns até mais que a
própria pedofilia: É preciso valorizar novamente os
mandamentos da Lei de Deus, que recomendam atitudes e
comportamentos castos, de acordo com o próprio estado de
vida. Não me refiro a tabus ou repressões "castradoras", mas
apenas a comportamentos dignos e respeitosos em relação à
sexualidade. Tanto em relação aos outros, como a si próprio.
Que outra solução teríamos? Talvez o vale tudo e o "libera
geral", aceitando e até recomendando como "normais"
comportamentos aberrantes e inomináveis, como esses que
agora se condenam? As notícias tristes desses dias
ajudarão a Igreja a se purificar e a ficar muito mais atenta
à formação do seu clero. Esta orientação foi dada há mais
tempo pelo papa Bento XVI, quando ainda era Prefeito da
Congregação para a Doutrina da Fé. Por isso mesmo, considero
inaceitável e injusto que se pretenda agora responsabilizar
pessoalmente o papa pelo que acontece. Além de ser ridículo
e fora da realidade, é uma forma oportunista de jogar no
descrédito toda a Igreja católica. Deve responder pelos seus
atos perante Deus e a sociedade quem os praticou. Como disse
São Paulo: Examine-se cada um a si mesmo. E quem estiver de
pé, cuide para não cair!
A Igreja é como um grande corpo; quando um membro está
doente, todo o corpo sofre. O bom é que os membros sadios,
graças a Deus, são a imensa maioria! Também do clero! Por
isso, ela será capaz de se refazer dos seus males, para
dedicar o melhor de suas energias à Boa Notícia: para
confortar os doentes, visitar os presos nas cadeias, dar
atenção aos abandonados nas ruas e debaixo dos viadutos;
para ser solidária com os pobres das periferias urbanas, das
favelas e cortiços; ela continuará ao lado dos drogados e
das vítimas do comércio de morte, dos aidéticos e de todo
tipo de chagados; e continuará a acolher nos Cotolengos
criaturas rejeitadas pelos "controles de qualidade"
estéticos aplicados ao ser humano; a suscitar pessoas, como
Dom Luciano e Dra. Zilda Arns, para dedicarem a vida ao
cuidado de crianças e adolescentes em situação de risco; e,
a exemplo de Madre Teresa de Calcutá, ainda irá recolher nos
lixões pessoas caídas e rejeitadas, para lavar suas feridas
e permitir-lhes morrer com dignidade, sobre um lençol limpo,
cercadas de carinho. Continuará a mover milhares de
iniciativas de solidariedade em momentos de catástrofes,
como no Haiti; a estar com os índios e camponeses
desprotegidos, mesmo quando também seus padres e freiras
acabam assassinados.
E continuará a clamar por justiça social, a denunciar o
egoísmo que se fecha às necessidades do próximo; ainda
defenderá a dignidade do ser humano contra toda forma de
desrespeito e agressão; e não deixará de afirmar que o
aborto intencional é um ato imoral, como o assassinato, a
matança nas guerras, os atentados e genocídios. E sempre
anunciará que a dignidade humana também requer
comportamentos dignos e conformes à natureza, também na
esfera sexual; e que a Lei de Deus não foi abolida, pois
está gravada de maneira indelével no coração e na
consciência de cada um.
Mas ela o fará com toda humildade, falando em primeiro lugar
para si mesma, bem sabendo que é santa pelo Santo que a
habita, e pecadora em cada um de seus membros; todos são
chamados à conversão constante e à santidade de vida. Não
falará a partir de seus próprios méritos, consciente de
trazer um tesouro em vasos de barro; mas, consciente também
de que, apesar do barro, o tesouro é precioso; e quer
compartilhá-lo com toda a humanidade. Esta é sua fraqueza e
sua grandeza!
[Fonte: Artigo publicado em O Estado de São Paulo, ed. 11.
04.2010].